Dormir mal pode aumentar a dor!


O que a ciência diz, como melhorá-lo e qual o papel da Osteopatia?

pelo nosso osteopata, João Abreu

Dormir mal e acordar com mais dor é uma experiência comum. Perturbações do sono e dor crónica estão entre os problemas de saúde mais prevalentes na população adulta e frequentemente
coexistem na prática clínica. Estima-se que uma proporção significativa de pessoas com dor persistente apresente também dificuldades em adormecer, manter o sono ou obter um sono reparador.

Muitas pessoas que sofrem de dores músculo-esqueléticas relatam que os sintomas pioram após noites de sono insuficiente ou fragmentado. Durante muito tempo esta associação foi interpretada apenas como consequência do desconforto físico. No entanto, a investigação científica mais recente sugere que a relação entre sono e dor é muito mais complexa e influenciam-se
mutuamente: o sono influencia a dor e a dor influencia o sono.


A RELAÇÃO BIDIRECIONAL ENTRE SONO E DOR
Atualmente sabe-se que perturbações do sono estão associadas a um aumento do risco de desenvolver dor músculo-esquelética crónica ao longo do tempo. Uma revisão sistemática com meta-análise publicada na revista Pain analisou dados de mais de 100 mil participantes e concluiu que indivíduos com problemas de sono apresentam maior probabilidade de desenvolver dor crónica ao longo do tempo. Por outro lado, pessoas com dor persistente parecem apresentar maior risco de desenvolver insónia ou outras perturbações do sono, mas esses resultados são incertos e requerem mais estudos (Runge et al., 2024).

Este fenómeno cria frequentemente um ciclo de retroalimentação:
• A dor dificulta o adormecimento e fragmenta o sono;
• O sono insuficiente aumenta a sensibilidade à dor;
• A dor torna-se mais intensa e persistente;

Com o tempo, este ciclo pode contribuir para que os sintomas dolorosos se tornem crónicos.

 

COMO O SONO INFLUENCIA A PERCEPÇÃO DA DOR?

O impacto do sono na dor não se limita à sensação de cansaço. Vários mecanismos fisiológicos ajudam a explicar esta relação, tais como:

→Aumento da sensibilidade do sistema nervoso
A privação de sono está associada a uma diminuição do limiar de dor, fenómeno conhecido como hiperalgesia (aumento da sensibilidade à dor). Revisões sistemáticas sugerem que noites de sono insuficiente ou fragmentado diminuem o limiar nociceptivo e aumentam a amplificação central
da dor, fazendo com que estímulos normalmente toleráveis sejam percebidos como mais
dolorosos (Chang et al., 2022).

→Alteração dos mecanismos de modulação da dor
O sistema nervoso possui mecanismos naturais que modulam a dor. No entanto, perturbações do sono parecem comprometer esses sistemas de controlo descendente, reduzindo a eficácia dos
sistemas de modulação descendente da dor, responsáveis por regular a transmissão de sinais nociceptivos no sistema nervoso central (Babiloni et al., 2024).

→Inflamação e stress fisiológico
A privação de sono também está associada a alterações metabólicas e inflamatórias. A evidência sugere que o aumento de inflamação sistémica e stress oxidativo pode amplificar a sinalização
nociceptiva e contribuir para o agravamento da dor crónica (Chen et al., 2024).

→Sensibilização central
Em algumas condições dolorosas persistentes, o sistema nervoso central pode tornar-se progressivamente mais sensível aos estímulos. Investigação recente mostra uma associação na qual indivíduos com dor na coluna vertebral crónica e insónia apresentam mais frequentemente características associadas à sensibilização central, sugerindo que o sono inadequado pode contribuir para processos de sensibilização central, caracterizados por maior excitabilidade neuronal, redução dos mecanismos inibitórios da dor e amplificação da sinalização nociceptiva no sistema nervoso central (Malfliet et al., 2023).

→Alterações do ritmo circadiano
Para além da quantidade de sono, a organização do ritmo circadiano parece também desempenhar um papel relevante. Alterações no ciclo sono-vigília, exposição insuficiente à luz natural durante o dia ou horários irregulares podem interferir com os sistemas neurobiológicos envolvidos na regulação da dor. Estudos sugerem que a fragmentação do sono profundo e alterações do sono REM podem comprometer a regulação neurobiológica da dor, contribuindo para maio sensibilidade nociceptiva e menor eficácia dos mecanismos inibitórios centrais.

Na prática, isto significa que depois de várias noites mal dormidas, o organismo fica num estado de “alerta” constante: a inflamação aumenta, os “travões” naturais da dor funcionam pior e o sistema nervoso torna-se mais sensível, pelo que gestos do dia a dia, como levantar um saco de compras ou estar sentado algum tempo, podem ser sentidos como muito mais dolorosos do que
habitualmente.

 

ONDE ENTRA A OSTEOPATIA?
A osteopatia pode desempenhar um papel relevante na gestão deste ciclo entre sono e dor, sobretudo quando a dor tem uma componente músculo-esquelética.

→Redução de estímulos nociceptivos periféricos
O Osteopata pode contribuir para reduzir estímulos nociceptivos periféricos em algumas condições músculo-esqueléticas e promover a diminuição da intensidade da dor, o que pode indiretamente favorecer o sono em determinados pacientes. No entanto, a evidência específica sobre o impacto direto da osteopatia na qualidade do sono ainda é limitada, pelo que estas intervenções devem ser entendidas como complementares e integradas em planos de tratamento multidisciplinares.

→Modulação do sistema nervoso autónomo
Alguns estudos sugerem que intervenções manuais podem influenciar a atividade do sistema nervoso autónomo (o ramo do sistema nervoso associado ao relaxamento e recuperação fisiológica), embora os mecanismos ainda estejam em investigação e a relevância clínica destes efeitos na relação entre o sono e a dor crónica ainda não está bem estabelecida.

→Abordagem da dor
A osteopatia integra fatores ambientais, contextuais, biológicos, psicológicos e sociais na avaliação do paciente, permitindo identificar fatores que podem perpetuar o ciclo entre dor e perturbações do sono no sentido de encaminhar em situações de necessidade.
Importa sublinhar que a osteopatia não substitui o tratamento médico de distúrbios do sono, mas pode ser uma ferramenta complementar dentro de uma abordagem multidisciplinar da dor.

 

O QUE ISTO SIGNIFICA NA PRÁTICA CLÍNICA?
Avaliar a qualidade do sono pode ser tão relevante quanto avaliar a mobilidade, a força muscular ou os padrões de movimento. Ignorar o papel e qualidade do sono na avaliação de pacientes com dor persistente pode limitar a eficácia das estratégias terapêuticas. Intervenções que combinem tratamento da dor, educação do paciente e estratégias de melhoria da qualidade do sono podem contribuir para quebrar o ciclo entre dor e privação de sono.

 

QUE ESTRATÉGIAS PODE ADOTAR PARA MELHORAR O SONO?
Melhorar a qualidade do sono pode ser um passo importante na gestão da dor. Algumas medidas simples são recomendadas por entidades como a American Academy of Sleep Medicine:

→Manter horários regulares
Deitar e acordar aproximadamente à mesma hora ajuda a estabilizar o ritmo circadiano.

→Usar o quarto apenas para dormir e descansar
O quarto deve ser associado ao sono e ao relaxamento. Trabalhar, ver televisão ou utilizar o telemóvel na cama pode enfraquecer essa associação.

→Se não conseguir adormecer, sair da cama temporariamente
Se após cerca de 15–20 minutos não conseguir dormir, levantar-se e realizar uma atividade calma com pouca luz. Isto evita que o cérebro associe a cama a estados de vigília ou frustração.

→Exposição à luz natural durante o dia
A luz solar ajuda a regular o ritmo circadiano e favorece a produção adequada de melatonina à noite.

→Atividade física regular
Exercícios durante o dia melhoram a qualidade do sono e reduzem a dor. Evitar exercícios muito próximos da hora de deitar, pois podem aumentar temporariamente a vigília.

→Reduzir exposição a ecrãs antes de dormir
A luz azul emitida por dispositivos eletrónicos pode interferir com a produção de melatonina.

→Evitar estimulantes no período noturno
Cafeína, álcool e refeições pesadas podem prejudicar a qualidade do sono.

→Criar um ambiente propício ao descanso
Quartos escuros, silenciosos e com temperatura ligeiramente fresca favorecem o adormecimento.

→Criar um ritual de relaxamento antes de dormir
Leitura, respiração lenta ou alongamentos suaves ajudam o corpo a entrar num estado fisiológico de relaxamento.

→Procurar avaliação médica especializada
Se as dificuldades de sono persistirem ou estiverem associadas a ronco intenso, apneia, sonolência diurna excessiva ou dor crónica que não melhora com higiene do sono, é importante consultar um médico especialista em Medicina do Sono. Estes profissionais podem identificar distúrbios ou patologias subjacentes e propor tratamentos específicos, que vão desde terapias comportamentais até intervenções médicas ou dispositivos respiratórios.

 

Referências bibliográficas
• American Academy of Sleep Medicine. (2021). Healthy sleep habits. Sleep Education.
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• Chang, J. R., Fu, S. N., Li, X., Li, S. X., Wang, X., Zhou, Z., Pinto, S. M., Samartzis, D., Karppinen, J., & Wong, A. Y. (2022). The differential effects of sleep deprivation on pain perception in individuals with or without chronic pain: A systematic review and metaanalysis. Sleep medicine reviews, 66, 101695.
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• Runge, N., Ahmed, I., Saueressig, T., Perea, J., Labie, C., Mairesse, O., Nijs, J., Malfliet, A., Verschueren, S., Van Assche, D., de Vlam, K., Van Waeyenberg, T., Van Haute, J., & De Baets, L. (2024). The bidirectional relationship between sleep problems and chronic musculoskeletal pain: a systematic review with meta-analysis. Pain, 165(11), 2455–2467.
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